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Para cada escritor o seu leitor ou vice-versa

Quarta-feira, 11.08.10

 

Ora aqui está um tema que me fascina! Escritores e leitores, leitores e escritores. Primeiro, porque estão tão mal definidos... Depois, porque trazem tantos equívocos e preconceitos atrás...


Bem, vamos começar do princípio:

- li este post do John (João Campos), A polémica do calhamaço, no Delito de Opinião (parece que a polémica é blogosférica e o calhamaço um Bolaño, 2666);

- fixei aquelas frases sábias, "... Os gostos dos leitores são tão diversos que me parece bastante problemático catalogá-los de forma tão simples. ...; ... Uma vez mais, creio que cada um continua a ler o que quer, dentro das suas possibilidades. ...; ...incomoda-me também a contínua 'marginalização' (passe a expressão) de alguns géneros literários que no nosso pequeno mundo literário contam muito pouco - ou nada." (Aqui, o John refere-se à fantasia e à ficção científica);

- lembrei-me das magníficas análises literárias do John, no Jardim de Micróbios, e das suas sugestões de leituras, que registei aqui.

 

Como definiria "escritores" e "leitores"? Para já, não gosto do termo "escritor", escrever todos escrevemos. O que distingue quem simplesmente escreve, regista qualquer coisa num papel ou num écran, de alguém que comunica ideias, teorias, ficção, etc.? Percebem o que quero dizer? Por isso prefiro o termo autor, mesmo que não se trate só de ficção, pode ser um ensaio, um trabalho científico.

E "leitor"? O que simplesmente lê? Como se decifrar uma linguagem codificada fosse suficiente para definir uma relação com o texto!? É que nunca vi o leitor de livros como um receptor passivo de uma qualquer informação. Há uma interacção, a meu ver.

 

O post do John também me despertou para a polémica, não sobre o calhamaço (já o disse aqui ou noutro lugar que, em princípio e por princípio, não gosto de calhamaços, a não ser que me consigam resumi-los ou transformá-los em filme ou documentário. Assim, em 2ª mão, talvez...). De calhamaços, assim que me lembre, só li dois ou três. E agora ando com a História de Portugal do Rui Ramos atrás.

Voltando ao post do John, estou em sintonia com a sua opinião sobre essa relação imprevisível e inexplicável escritores-leitores. Só acho que pode haver, realmente uma influência do factor-publicidade, as pessoas não são completamente imunes a isso. Mas, no geral, creio que a escolha do livro é pessoal.

 

Desde miúda tive a sorte de o meu pai (leitor voraz, ainda hoje) nos contar partes de calhamaços: A Odisseia por exemplo, a cena do gigante tem sempre sucesso garantido na criançada... alguns episódios da Bíblia, o José e os seus doze irmãos, o menino no rio e na corte do Egipto... depois alguns excertos do Jorge Amado, o seu incrível sentido-de-humor, O Capitão de Longo Curso, o homem que sem perceber nada do mar salva, completamente por acaso, o seu barco de uma tempestade... e ainda houve a fase Latérguy, Os Pretorianos, Os Centuriões, a guerra da Indochina, o homem que conta ao companheiro de armas que a mulher tinha gasto todo o dinheiro da comissão para concertar o telhado do castelo também tinha sucesso... mais tarde  o Camus, esse estranho O Estrangeiro, que tanto me incomodou quando o li depois.

Antes de ler, ouvi muitas histórias, vi as cenas, ri-me com as personagens. Penso que a melhor iniciação de qualquer leitor é ouvir primeiro, ver primeiro. É que assim percebe-se melhor que a relação com um qualquer texto é uma relação viva, mutável, apaixonada por vezes, conflituosa por vezes, e sempre sempre pessoal.


Nas minhas primeiras leituras dirigi-me naturalmente para a acção, as aventuras, as personagens, o suspense, a adrenalina. Mas também lia poesia (aí por influência da minha mãe) porque gostava de a dizer, da música própria da poesia. Assim como alguns actos de peças de teatro,  adorava representar.

Só mais tarde me virei para a descrição e observação, a filosofia e reflexão, a crítica mordaz, dos meus autores preferidos. E actualmente, depois de tanta ficção, confesso, prefiro bons ensaios. E agradeço aos que transformam, como disse ali atrás, um bom calhamaço num filme ou documentário. Em 2ª mão, é melhor.

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 08:39

Do Tempo das Descobertas: Bom demais para vender bem

Sexta-feira, 16.04.10

 

Mais um post do Saída de Emergência, desta vez sobre um autor do género fantástico. Com um título provocador: Bom demais para vender bem.

 

Aí vai:

 

" Bom demais para vender bem

 

Caros fãs do fantástico

A partir de agora, num esforço para aproximar ainda mais a SdE e os fãs, os editores vão tentar escrever uma mensagem em todas as novidade da Colecção Bang! Uma mensagem que justifique a publicação da obra, destaque os seus pontos fortes e chame a atenção para as virtudes do autor. Se algumas mensagens parecerem mais apaixonadas, não se espantem, na SdE somos fãs do fantástico e todos os fãs têm direito a falar com paixão!

Vamos então ao Forças do Mercado. O primeiro livro que li de Richard Morgan (que alguns de vocês tiveram o prazer de conhecer pessoalmente quando o trouxemos para um Fórum Fantástico) foi o Carbono Alterado - indiscutivelmente um dos melhores livros de fc que li em toda a minha vida. A seguir devorei Forças do Mercado e não fiquei desiludido. Morgan escreve bem em todos os sentidos da expressão. A sua escrita é crua e violenta, tal como as suas personagens. Estas são complexas e reais, e o leitor acaba por se preocupar e identificar com elas. A imaginação de Morgan é ímpar, alimentada por bons livros, bons filmes e bons jogos.

Tanto Carbono Alterado como Forças do Mercado têm os direitos vendidos para Hollywood. E lendo estes dois livros é fácil compreender porquê. Brutalmente visual, a escrita de Morgan aliada à sua imaginação é uma força da natureza e um dos motores da actual fc. Se Carbono Alterado nos levava para um futuro mais distante, já o Forças do Mercado nos fala do amanhã. Os temas do livro são os temas que não saem das nossas TVs: a globalização no seu pior, as corporações que cresceram até ficarem mais poderosas do que os próprios Estados, os políticos ao serviço não do povo mas das corporações. Um mundo frio, desumano, egoísta, bestial. Uma espécie de Mad Max meets Wall Street. E o nosso herói, com quem nos queremos identificar, em cujo peito procuramos um cantinho quente para nos abrigarmos, afinal é um filho da mãe como todos os outros. Ou será que não?

Uma colecção de fantástico que se preze tem de ter autores como Richard Morgan. Vendem pouco mas têm de ser publicados. E vendem pouco precisamente porque são muito bons. Bons demais para chegarem às massas. Bons demais para leituras preguiçosas. Bons demais para quem lê enquanto ouve música e deita o olho à televisão. Autores como Morgan são bilhetes para locais distantes. Mesmo vendendo mal, são um orgulho de publicar. Espero ter conseguido deixar alguns fãs com água na boca...

Um abraço e votos de boas leituras, 

Por Luís CR [Editor]  

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 13:25

Do Tempo das Descobertas: O vento e os salgueiros

Quarta-feira, 17.03.10

 

Do Dias com Árvores, este poético post sobre salgueiros e vento. Paulo Araújo refere na resposta ao meu comentário que o título foi inspirado num romance para crianças de Kenneth Grahame, mas a mim lembrou-me de imediato o vento nas árvores dos filmes de David Lean.

 

"  O vento e os salgueiros 


Salix atrocinerea Brot. [em cima os amentilhos femininos, em baixo os masculinos]

As árvores europeias mais comuns não se destacam pela floração vistosa. Muitas delas confiam ao vento o trabalho de polinizar; e, como ele não é caprichoso e faz o serviço de graça, não há razão para tentar seduzi-lo. As flores masculinas surgem em cachos pendentes e flexíveis - os amentilhos - que foram feitos para dançar ao vento, largando o pólen enquanto se saracoteiam. As flores femininas, por seu turno, quase não se vêem: basta que estejam lá, abertas para receber esse pó fecundo que tantas alergias nos provoca. Carvalhos, bétulas, avelaneiras e amieiros, todos eles optaram por esse modo de reprodução que dispensa a ajuda das abelhas e de outros insectos diligentes.

À primeira vista, os salgueiros (género Salix) fariam igualmente parte do clube das árvores auto-suficientes. Afinal, as suas flores também vêm dispostas em amentilhos, e não são particularmente chamativas nem pela cor nem pelo cheiro. Existem, porém, duas diferenças cruciais: os amentilhos não são flexíveis, e há-os de dois tipos, masculinos ou femininos. É que os salgueiros são dióicos, querendo isto dizer que há árvores dos dois sexos, cada qual com o seu tipo de flor. Os amentilhos masculinos não se balançam ao vento, e os femininos não se esforçam por passar despercebidos. A revelação de que os salgueiros são polinizados por abelhas e mariposas não surge assim como surpresa. E há recompensas para garantir que os bichos cumprem a tarefa de bom grado, pois tanto as flores femininas como as masculinas estão equipadas com nectários. Tirando isso, umas e outras adoptaram um formato minimalista: as masculinas são quase só estames, e as femininas reduzem-se aos ovários.

A dispersão das sementes é a fase do ciclo de vida dos salgueiros em que eles pedem ajuda ao vento. Para melhor esvoaçarem, as diminutas sementes vêm envolvidas por pêlos sedosos. É o contrário do que sucede com os carvalhos: embora eles sejam polinizados pelo vento, as bolotas que produzem nada têm de aerodinâmico. E há ainda outras árvores, como os choupos e os plátanos, que usam os bons ofícios do vento em todas as fases da sua propagação.

Com a sua copa baixa e arredondada, o salgueiro-preto (Salix atrocinerea) é um dos salgueiros mais abundantes no nosso país, formando bonitas galerias ao longo de rios e de outros cursos de água. É também, por florir precocemente, uma importante planta melífera numa altura do ano em que são escassas as flores. Já o tínhamos
mostrado em Santo Tirso acompanhando as curvas do rio Ave. Corria então o mês de Fevereiro e a floração estava no auge, mas agora que Março vai embalado já não sobram muitos dias para ver o espectáculo. Uma observação atenta de uma fiada destes salgueiros permite, mesmo ao longe, diferenciar o amarelo das copas masculinas do verde das femininas.

As fotos de hoje foram tiradas na freguesia do Campo, em Valongo, ao fundo de uma elevação onde se instalou uma grande pedreira para extracção de xisto. Curiosamente, os salgueiros não colonizaram as margens do rio Ferreira, mas apenas as de um magro ribeiro - pouco mais que um fio de água, inteiramente escondido pelas árvores - que nele ali desagua.

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 15:47

Do Tempo das Descobertas: Um Homem

Quarta-feira, 03.02.10

 

Do Circo da Lama este post sobre um homem e esta frase que registei: “há nos homens mais coisas a admirar que coisas a desprezar.”

 

 

" Um Homem

 

 

 

O Homem é um estrangeiro, um estranho. “Num universo subitamente privado de ilusões e de luzes” o Homem só se pode sentir estrangeiro. Mas ao contrário do exilado e do refugiado, o Homem tem de viver sem o consolo “de uma pátria perdida” e sem “a esperança de uma terra prometida”. Nem Ulisses, nem Judeu. O Homem já nasce longe de casa. E a casa nem sequer existe. Vale a pena viver esta vida? No ensaio O Mito de Sísifo, Albert Camus defendia que esta era a pergunta a que tínhamos de responder e o suicídio o único problema filosófico verdadeiramente importante. Ainda hoje há muitos que consideram que a obra de Camus apresenta o suicídio como a única saída para o Homem cercado de desespero por todos os lados. Para contrariar esta ideia basta ler o final do romance A Peste. Ou examinar com mais atenção a vida de Camus. O seu percurso foi invulgar. Nascido na Argélia, pied-noir, como eram depreciativamente chamados os franceses nascidos naquela colónia, Camus foi para a metrópole em 1941. A tuberculose impedira-o de prosseguir a carreira docente e Camus iniciou a carreira no jornalismo. Colaborou com a Resistência e foi redactor principal do jornal clandestino Combat, um dos mais importantes títulos da imprensa francesa durante a ocupação alemã. Quando ocorreu a libertação, em 1944, Camus já conquistara o seu espaço na literatura francesa. Dois anos antes publicara o romance O Estrangeiro e O Mito de Sísifo, que lhe valeram a atenção da crítica e a admiração, embora com reservas, de Jean-Paul Sartre. A amizade entre os dois gigantes terminaria anos mais tarde. Em 1951, Albert Camus publicou o ensaio O Homem Revoltado. O livro continha críticas ao Marxismo e ao modelo soviético e foi demolido numa recensão publicada na revista Les Temps Modernes, dirigida por Sartre. O que era uma manifestação do profundo humanismo de Camus contra todas as formas de opressão foi entendido pela esquerda como uma traição. As trincheiras ideológicas estavam demasiado cerradas para que uma “terceira via” fosse aceite sem turbulência. Para Camus, o homem absurdo tinha de aprender a viver sem as muletas de Deus ou do Partido. A sua vida e a sua obra são um testemunho a favor da esperança contra todas as evidências. Num mundo sem sentido, cheio de dor e de desespero, o homem deve exprimir a sua revolta positiva. “É preciso que nos ajudemos uns aos outros”, diz uma das personagens de A Peste. No final do romance, há uma frase que serve de fundamento ao humanismo ateu de Camus: “há nos homens mais coisas a admirar que coisas a desprezar.” A 4 de Janeiro de 1959, dois anos após ter recebido o Prémio Nobel, Albert Camus morreu num acidente de viação. Tinha 46 anos. Nascera no exílio, “entre a miséria e o sol.” Como todos os homens. "

 

Por Bruno Vieira Amaral 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 17:02

Do Tempo das Descobertas: "Der himmel über Berlin" e "Ao fim de uns dias"

Sábado, 23.01.10

 

Do Vontade Indómita dois posts que nos levam até Berlim e a um bater de asas que nos recorda um filme poético de Wim Wenders e a maior aventura de um anjo: tornar-se homem, e ficar sujeito à condição de mortal, às sensações, às emoções, aos sentimentos.

 

 

" Der himmel über Berlin

 

 



Als das Kind Kind war, / ging es mit hängenden Armen, / wollte der Bach sei ein Fluß, / der Fluß sei ein Strom, / und diese Pfütze das Meer. // Als das Kind Kind war, / wußte es nicht, / daß es Kind war, / alles war ihm beseelt, / und alle Seelen waren eins. [...]

Não sei alemão. Não obstante, este poema de Peter Handke em voz-off, na cena da impressionante Staatsbibliothek, é dos momentos «mais belos» (ordem estética) do filme de Wenders. Por isso, amanhã de manhã para lá vou eu, com a fonética destra métrica na cabeça à procura de Damiel e Cassiel. Para o que der e vier.  "

" ao fim de uns dias,

a neve continua a cobrir a cidade com um manto branco e posso igualmente dizer que ainda não encontrei Damiel ou Cassiel. Nem na Staatsbibliothek, nem na estátua ao cimo da Siegessäule onde Wenders os filmou. No entanto, já vi uma ou outra mulher com a leveza & graça da trapezista Marion. Essa mesma figura misteriosa e solitária que foi a responsável por fazer um anjo recusar a dádiva divina, insípida e sentimentalmente distante da imortalidade. Uma ou outra, dizia eu, ou não fosse esta semana a Fashion Week Berlin.  "

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 22:55

Do Tempo das Descobertas: Leitura portátil

Terça-feira, 19.01.10

 

Do Albergue Espanhol este post de Luís Naves sobre livros e filmes, neste caso de ficção científica mas que, no fundo, nos levam sempre ao essencial da natureza humana e do seu destino.

 

" Leitura portátil

 

por Luís Naves 

O fim da Humanidade

A literatura tem extensa tradição de histórias pós-apocalípticas, sobretudo no género da ficção científica, mas há exemplos clássicos de relatos sobre a deambulação desesperada de personagens por mundos em colapso e paisagens desoladas. A crueldade das guerras deve ter produzido as primeiras referências, mas a destruição da humanidade é um mote mais recente. Nos cinemas está ainda em exibição um óptimo filme sobre o tema, A Estrada (na imagem), baseado no romance homónimo de Cormac McCarthy. [Ficamos na dúvida sobre a causa do apocalipse, mas os incêndios florestais a posteriori fizeram-me pensar na hipótese de asteróide].
O cinema adora este assunto (Mad Max, Waterworld) e já existe a tecnologia para o explorar. Na literatura, o tema terá aparecido com os românticos, mas foi usado por autores difíceis de classificar (Jack London, por exemplo).
Jules Verne e H. G. Wells exploraram o filão, que se tornou típico da literatura de imaginação científica. Mas a grande explosão de histórias surgiu no tempo da Guerra Fria, quando a destruição do planeta era uma possibilidade que não levaria mais do que alguns minutos de decisões erradas.
Há apocalipses de vários tipos, das invasões à doença. Dois livros famosos exploraram a destruição civilizacional criada pela cegueira súbita da humanidade: O Dia das Trífides, um sci-fi do britânico John Windham; e outro mais recente, Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago, onde se imagina um mundo pós-apocalíptico parecido com um campo de concentração.
Quando eu era miúdo e devorava livros da colecção Argonauta, gostei especialmente de um romance muito imaginativo, Um Cântico para Leibowitz, de Walter M. Miller Jr. É também uma notável reflexão sobre a religião, a força dos dogmas e a teimosia humana. Miller era sobretudo um autor de contos e surge exactamente neste formato um dos textos mais devastadores que já li sobre distopias pós-apocalípticas. Chama-se Lot, é da autoria de um obscuro jornalista e escritor americano, Ward Moore, que para a posteridade deixou
esta história de uma dezena de páginas. Há um conto semelhante, de Júlio Cortazar, A Autoestrada do Sul que deu origem a um filme de Godard, Weekend; mas Lot também inspirou filmes (parece que nem pagaram direitos ao autor, limitando-se a roubar a ideia).
E que ideia é essa? Moore imagina uma ameaça (talvez uma guerra nuclear) e um homem menos que banal, que tem um plano de fuga da sua família. Esta corrida para a segurança prevê passos intermédios, incluindo chegar a determinada autoestrada em certa quantidade de minutos, levar apenas o essencial no carro, sacrificar o cão, escapar aos engarrafamentos de tráfego, por aí fora.
Seguimos o protagonista e os seus cálculos cada vez mais mesquinhos; a acção acelera, à medida que a condução fica mais brutal; a família discute; o mundo torna-se alucinante, enquanto a fuga avança e o tempo escasseia. Mas o leitor não está preparado para o final da história, que me parece ser um monumento literário sobre a natureza humana, no que ela tem de primitivo e, apesar de tudo, de complexo e impiedoso. Em Lot, o golpe de asa está no desenlace tão lógico que só podia ser aquele. Pelo contrário, em A Estrada é um final mole que desilude e enfraquece uma ideia que tem dado pano para mangas. 
"

 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 16:34

Do Tempo das Descobertas: Leituras de Dezembro de 2009

Terça-feira, 12.01.10

 

Do Saída de Emergência, este post sobre leituras recentes e promessas futuras. Gostei sobretudo de saber um pouco mais sobre o autor da série Flashforward, que já referi aqui, e muito me surpreende que não esteja a ser acarinhada pelos americanos (o que é se passa? Ficar-se pela primeira temporada? Nem pensem nisso!)

 

 

 

" Leituras de Dezembro de 2009

 

O que lêem os editores? Sim, o que lêem os profissionais da edição que, parecendo que não, decidem o que os restantes portugueses vão ler? Só posso falar por mim, mas acredito que todos os editores tenham dois tipos de leitura: a profissional e a pessoal. Na primeira lêem o que consideram publicar, na segunda lêem o que gostam. Pessoalmente tenho sorte pois muita da minha leitura pessoal acaba no catálogo da editora. Mas muita também não acaba – por mil e uma razões diferentes. É dessa leitura que vos pretendo falar, das leituras invisíveis mas que, de certa forma, ajudam a moldar os meus alicerces e os da Saída de Emergência. Não pretendo que estes textos (que espero mensais), sejam vistos como um exercício de vaidade. Tenho consciência de que estas leituras vão interessar a poucos. Mas para os fãs incondicionais da editora, abro a minha biblioteca…
 
   
Something Wicked This Way Comes de Ray Bradbury

 

Foi-me recomendado pela Gi, a mulher do David Soares, com os maiores elogios à prosa e à história. E tudo se confirmou, este livrinho é um verdadeiro tesouro. Ouvi-o em versão áudio e, maravilhosamente lido, nada se perdeu. Considerado uma obra-prima da literatura de horror, é a história de dois rapazes de treze anos, James e William, e do mal que abraça a sua cidadezinha do interior com a chegada de um estranho circo ambulante. O que faríamos se os nossos mais secretos desejos fossem tornados realidade pelo misterioso chefe do circo? Ray Bradbury, numa voz maravilhosa, fala-nos de inocência, coragem, amizade, reencontro. Um verdadeiro hino à melhor literatura fantástica.

 

Land of the Headless de Adam Roberts

No futuro distante a humanidade levou a religião e as desuniões dela resultantes para o espaço. E, num planeta onde a sociedade segue de forma fundamentalista o Antigo Testamento e o Corão, um poeta é acusado de violar uma mulher. Julgado culpado, é sentenciado à pena máxima: a decapitação. Depois de lhe ser removida a cabeça é equipado com uma válvula no pescoço (por onde pode respirar e alimentar-se), um ordenador (que guarda a sua personalidade e memórias), e equipamento sensorial (visão e audição básicas). Exemplarmente castigado, pode seguir a sua vida. Como seria de esperar, e é essa a sua verdadeira punição, carrega um terrível e manifesto estigma. A sua única forma de sobreviver é alistar-se no exército e seguir para a frente de combate enquanto planeia a vingança contra o homem que acredita ser o responsável pela sua perdição. Land of the Headless tem uma prosa sem mácula e está repleto de grandes ideias. É uma escalpelizarão sublime da condição humana, uma sátira sobre fundamentalismo religioso, intolerância, crueldade, estupidez, mas também uma tocante história de amor, sacrifício e idealismo.

 
The Dying Earth de Jack Vance

Adorava publicar este gigante da literatura fantástica. Mas não sou assim tão masoquista - a Colecção Bang! já tem suficientes gigantes a vender pouco, como é o caso de Michael Moorcock, Fritz Leiber ou Mervyn Peake. Recomendo no entanto a leitura desta fantasia científica onde Jack Vance, através de curtas histórias interligadas, nos transporta para um futuro muito distante. Tão distante que a Terra se prepara para ser engolida pelo sol vermelho e gigante. Uma Terra moribunda onde magia e ciência significam a mesma coisa. The Dying Earth está um pouco datado – afinal, já tem 60 anos – mas Jack Vance escreve tão bem que este clássico envelheceu com elegância e graça.

 
Banda Desenhada


Em Dezembro li Astérix - O Regresso dos Gauleses, Lucky Luck - A Corda do Enforcado, Tintim – As Jóias da Castafiore e Spirou e Fantásio – A Máscara Misteriosa. Leituras um pouco clássicas mas maravilhosamente intemporais. Na última feira do livro completei a minha colecção do Astérix e na próxima deverei completar as restantes (pois é, as feiras dos livros são oportunidades para todos). Também li o novíssimo Blake e Mortimer – A Maldição dos Trinta Denários. Não é um original de Edgar P. Jacobs, mas é muitíssimo bom, e estes dois aventureiros continuam a ser as minhas personagens favoritas de BD.

Mas há mais BD para além da europeia, e a americana está a viver o que penso ser uma autêntica era dourada. Argumentistas inteligentes e ilustradores talentosos surgem nas mais variadas chancelas com novidades surpreendentes a todos os níveis. Este mês fiquei a conhecer The Programme onde Peter Milligan nos apresenta um mundo adulto onde a origem dos super-heróis está ligada à Segunda Guerra mundial e à posterior Guerra Fria. O desenho é de C. P. Smith e, se o seu traço primeiro se estranha, depois entranha-se totalmente. Estou desejoso em deitar as mãos ao segundo volume desta série. Também li o 5º volume de Tom Strong, uma das muitas personagem criadas por esse génio artístico chamado Alan Moore (cujo romance, A Voz do Fogo, a Saída de Emergência terá o prazer de republicar no último trimestre de 2010). Tudo o que li até agora de Alan Moore é, no mínimo, muito bom. E para os fãs de pulp fiction, os livros de Tom Strong são uma delícia para os olhos e para o coração.

 Televisão


Devorei os 10 episódios de Flashforward, a série inspirada no livro de Robert J. Sawyer (que vai sair na Colecção Bang! em Março deste ano). O livro é muito interessante, original e inspirador, e a série, apesar de todas as inevitáveis mudanças, também é excelente. Recomendo sem reservas apesar do público americano não estar a corresponder à série e esta estar em risco, segundo consta, de se ficar pela primeira temporada!

Também ando a rever, poooouco a poooouco, toda a série dos X-Files. Vou na quarta temporada, talvez a melhor até agora. Envelheceu muito bem apesar de ser uma série de género (fc, fantasia e horror).

Outra série que deve tudo aos livros é a Sharpe, baseada na obra de Bernard Cornwell. Com Sean Bean no papel de Richard Sharpe, é de visionamento obrigatório para quem se interessa pela obra de Cornwell ou pelas Guerras Napoleónicas (ou apenas por uma série histórica muito bem interpretada e produzida).

Um abraço e votos de boas leituras (e não só) para Janeiro de 2010

Luis CR [editor]   "

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 11:25

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Sexta-feira, 25.07.08

 

Durante uns tempos parar de falar

Ouvir o silêncio

 

Ouvir outras vozes

Vozes dissonantes

 

Não sempre as mesmas repetidamente

mas vozes diferentes

 

Desmontar vozes

que sempre se ouviram com fascínio

 

Procurar por detrás

desmontar tudo

 

Ouvir de novo

desmontar outra vez





 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 12:14

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Terça-feira, 22.07.08

 

O homem prefere a ficção à realidade

Entre a ficção e a realidade, escolhe a ficção

 

A evolução humana, a história de uma construção de histórias

por cima da realidade

 

No meio desses construtores de histórias

aparece um ou outro demolidor de histórias

 

Retiram camadas e camadas de histórias

e fazem-no da forma mais inteligente possível

 

Amamos esses autores que construíram

a partir da realidade e não da ficção



 

 

 

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publicado por Ana Gabriela A. S. Fernandes às 18:33








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